terça-feira, 11 de agosto de 2015

ENTREVISTA: Dom Jaime Fala Sobre a Seca


O prognóstico de seca ainda mais rigorosa em 2016 e os atrasos no pagamento das desapropriações e das obras da Barragem de Oiticica, na região Seridó do Rio Grande do Norte, levaram o arcebispo da Arquidiocese de Natal, Dom Jaime Vieira Rocha, à Brasília. Ao longo do dia de hoje (11), ele estará reunido com o ministro da Integração Nacional, Gilberto Occhi. Na comitiva de potiguares, os representantes da Diocese de Caicó, Pe. Ivanoff da Costa Pereira; do Comitê da Bacia Hisrográfica Piancó-Piranhas-Açu, José Procópio de Lucena; além de membros da Associação dos Atingidos pelas obras Barragem de Oiticica. Dom Jaime Vieira Rocha antecipou que, a partir da problemática de Caicó, que enfrenta uma séria crise de abastecimento, além da afetação de 70 famílias com as desapropriações para a construção da Barragem de Oiticica, a reunião será conduzida no Ministério da Integração Nacional. Com o Açude Gargalheiras com menos de 1% da capacidade de armazenagem de água, além de uma infinidade de açudes secos na Região Seridó, o colapso no abastecimento dos municípios poderá se viralizar. “A situação é grave e é preciso uma manifestação sobre isso”, argumentou o arcebispo. Acompanhe a entrevista:

Dom Jaime Vieira da Rocha - arcebispo metropolitano de NatalDom Jaime Vieira da Rocha - arcebispo metropolitano de Natal
   
Dom Jaime, qual o intuito desta visita ao ministro da Integração Nacional, em Brasília?
O intuito com o ministro da Integração Nacional é podermos falar claramente sobre a situação mais urgente dos atingidos pela obra. A população daquela área que está a mercê, ainda, de ver respeitado seus direitos. Nós vamos insistir bastante no problema da desapropriação, para que o Governo pague as desapropriações. É isto o que queremos em primeiro lugar.

Está tendo algum problema em relação a esses pagamentos? Estão atrasados?
Sim. Estão atrasados e a obra está praticamente parada. Isto é algo bastante sério para o estado, sobretudo nesta crise hídrica tão aguda que nós estamos vivendo.

Quantas famílias foram atingidas pelas desapropriações?
Foram 70 famílias e mais grande parte da população que direta ou indiretamente também são atingidas pela construção da barragem antes, logo no início, com a perfuração de terrenos com dinamites. Mas, hoje, o problema maior é justamente esse: é garantir o pagamento das desapropriações.

Como a Arquidiocese de Natal avalia o não cumprimento das decisões relativas à celeridade das obras, ao pagamento em dia das desapropriações?
Nossa preocupação é sempre insistir para que essas providências que deveriam ser prévias, para o início da construção, fossem efetuadas. Normalmente, começa-se uma obra e as pessoas atingidas ficam para segundo plano e, muitas vezes, sem alguém que interceda ou que ajude a lutar. Existe um comitê de bacias daquelas região e a Associação dos Atingidos pela Barragem. Estes organismos estão coesos nessa luta e tenho a impressão que a audiência com o próprio ministro surta providências mais concretas e urgentes.

O senhor acredita que, diante desse cenário de crise, voltará ao Rio Grande do Norte com um a resposta positiva?
Eu realmente vejo que esse discurso da própria comunidade e também dos setores da região que estão envolvidos na defesa dos atingidos pela construção da barragem, essa é uma luta que vem sendo travada há bastante tempo, desde o início da construção das barragens. Desde o início, nós estivemos lá. A Igreja do Rio Grande do Norte, os bispos, as lideranças locais, o Governo do Estado. Foram inúmeras as reuniões, as discussões e o próprio ministro esteve no mês maio passado no seminário sobre o Nordeste e foi interpelado, também, sobre isto. E nós devemos insistir nesta pressão para que algo seja feito. Mas eu também vejo que, entre os objetivos que estão aí motivando a nossa ida, que o quadro político que eu estou vendo que vem se alterando a cada dia, realmente a realidade de hoje é bastante preocupante.

Em relação à Transposição do Rio São Francisco, será abordada questão em algum momento da reunião?
Estando lá com o ministro, nós vimos que poderíamos participar, também da agenda, um pedido de apoio ao próprio Ministério que nós bispos da Regional Nordeste II pretendemos fazer às obras da Transposição e também ao próprio rio. O primeiro objetivo da visita dos bispos seria ver in loco a situação do Rio São Francisco e, depois, uma visita monitorada às obras da Transposição. Isto é o que foi pensado. Claro que estamos dentro desta realidade bastante instável e também muito grave. Eu não teria condições de fazer nenhum prognóstico se vai valer a pena ou não vai diante dessa crise.

Dom Jaime, o senhor acredita que essa crise hídrica histórica no Rio Grande do Norte é reflexo da falta de empenho político, de descaso? É um problema que já poderia ter sido amenizado ou até mesmo resolvido?
Não podemos deixar de nos referir à abrangência da discussão sobre a questão hídrica, que desde o início foi bastante polêmica, suscitando o parecer muito amplo e também contraditório e divergente sobre o assunto. Não só sobre a questão do Rio São Francisco, como foi um assunto polêmico, como também sobre a própria política de Recursos Hídricos para o estado. Esta política já tem bastante tempo. Teve seu ponto alto com o projeto das adutoras, que foi executado, e tendo agora que ser ampliado e, dentro desse projeto maior de um  Plano de Recursos Hídricos para o estado, entra a questão do aproveitamento das águas da Armando Ribeiro e a revitalização do Rio Piranhas-Açu e de outros rios que canalizam suas águas para o estado do Rio Grande do Norte. E é por esta calha fluvial ou de rios, que iremos receber as águas do São Francisco. É o que está previsto. Então, eu vejo que o problema está mais forte atualmente por causa da gravidade da crise hídrica.

Abrir mão do projeto nesta fase seria insensato?
Mesmo que tenha havido divergência nos pontos de vista completamente contraditórios, hoje ninguém se arrisca a dizer que deveríamos abrir mão do projeto do São Francisco porque estamos vendo que o estado está numa crise hídrica absolutamente profunda e precisa ser abastecido. Não podemos deixar de receber esse aporte, mesmo sabendo da situação do rio como está, que é também crítico. Sem isso, não há água. Nós não temos água. Dez cidades potiguares já estão em colapso e outras 23 em processo com os seus reservatórios secando rapidamente.

A obra da Transposição do Rio São Francisco para o Rio Grande do Norte ainda não foi licitada. Nessa conversa com o ministro da Integração Nacional, o senhor irá tratar desse assunto?
Eu vejo que esses assuntos todos serão abordados com o ministro com muita clareza. Nós sabemos que o Estado da Paraíba já cumpriu seu dever de casa quando mais de 80% das obras estão executadas e o nosso estado ainda não conseguiu nada a esse respeito. Tudo aquilo que foi concebido como política não foi efetuado. A questão de saneamento básico e de uma série de programas que deveriam ter sido executados, não foi.

Qual resposta o senhor gostaria de ouvir do ministro?
A resposta que nós gostaríamos de ouvir do ministro era o cumprimento de tudo aquilo que foi acordado em diversas outras ocasiões, documentos assinados. Que haja alguma ação concreta que suscite, nas pessoas, um pouco mais de esperança e alento. Também vejo que não deveria ser benéfico para o nosso estado a paralisação completa das obras  barragem para o nosso estado, pois sabemos o quão importante elas são. Então, isso é fundamental. 
 
 
 
 
 
#Fonte: Tribuna do norte

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