Canguaretama: ENTREVISTA: "VAMOS RECUPERAR A LIDERANÇA NA PRODUÇÃO DE CAMARÃO"


Com uma lei que regulamenta a atividade e alta do dólar, o presidente da Associação Norte-rio-grandense de Criadores de Camarão (ANCC), Orígenes Monte, vislumbra que o estado vai reconquistar o primeiro lugar na produção nacional do crustáceo. Doenças, enchentes e insegurança jurídica fizeram o Rio Grande do Norte reduzir em 54,7% a produção, de 2003 para 2013. Mas agora, segundo o presidente da associação, tudo concorre para que a produção de camarão do RN entre numa curva  ascendente. A Pesquisa Pecuária Municipal, divulgada nesta semana já mostra um crescimento de 7,73% da produção em 2014 se comparado com o ano anterior. 

O presidente da Associação dos Criadores de Camarão do RN fala sobre perda de espaço para o Ceará e afirma: O momento potiguar é favorávelO presidente da Associação dos Criadores de Camarão do RN fala sobre perda de espaço para o Ceará e afirma: O momento potiguar é favorável

Uma pesquisa do IBGE divulgada nesta semana mostra que o Rio Grande do Norte ocupa o segundo lugar na produção de camarão no Brasil com quase metade da produção do primeiro colocado, o Ceará. Mas o Estado já foi líder na década passada. Quais os motivos que justificam essa situação da produção estadual?
Tivemos uma redução de produção provocada por uma endemia chamada de “mancha branca”, que reduziu de maneira considerável a produção no Estado. Nós tínhamos a insegurança jurídica pela falta da lei Cortez Pereira. Sem o licenciamento, não tínhamos legalização das fazendas, não tínhamos direito à financiamento, o que atrasava muito o desenvolvimento da atividade. Dentro de muito pouco tempo, vamos recuperar boa parte da produção que nós perdemos. Outra questão foi que nós tivemos duas cheias nos últimos dez anos que prejudicaram os maiores produtores.

O que o Ceará fez que não foi feito no RN?
O Estado do Ceará teve uma quantidade muito grande de novas fazendas na interiorização da carcinicultura, coisa que nós não iniciamos ainda. Houve um acréscimo de número de fazendas de camarão muito grande em Jaguaruana, equivalente a todos os produtores do Rio Grande do Norte. Enquanto nós temos 465 produtores em todo o Estado, somente no rio Jaguaribe existe 460 produtores. No momento, eles estão sofrendo com a falta d'água agora, mas mesmo assim eles aumentaram muito a produção. Nós temos um potencial imenso para interiorizar, até porque nós temos águas salobras de  subsolo que podem e devem ser aproveitadas na carcinicultura. Mas isso é um programa de governo. Estamos sensibilizando o governo do Estado. O secretário de Desenvolvimento Econômico, Flávio Azevedo, está muito entusiasmado com essa perspectiva de crescimento da carcinicultura no Estado.

As fazendas de camarão do Rio Grande do Norte estão concentradas em quais regiões?
A carcinicultura do Rio Grande do Norte tem a predominância de água estuarina, água de litoral, que não vai faltar e não tem problema de concorrer com o consumo humano. São águas salobras e que se distribuem em todos os estuários do RN desde o rio Curimataú (Canguaretama) até Areia Branca. Temos atividades de carcinicultura em todos os estuários do Rio Grande do Norte. A maior concentração de  pequenos e micros é região da Lagoa de Guaraíras, de grandes produtores e médio é na região de Pendências, Alto do Rodrigues  Macau.

O Idema (Instituto de Desenvolvimento Sustentável e Meio Ambiente do Rio Grande do Norte) chegou a enviar duas cartas se posicionando contrariamente à lei Cortez Pereira. Na avaliação do senhor, a legislação traz prejuízo ao Meio Ambiente?
Eu desconheço essas cartas do Idema. Vi uma movimentação nesse sentido do Ibama, e não do Idema. Há sempre um idealismo, quase um crença religiosa que a carcinicultura prejudica o meio ambiente, o que não é verdade. Algumas pessoas demoraram a se convencer da nossa legalidade. Mas acredito que isso vai ficar superado. A lei existe, está vigorando e não tem mais o que se discutir. Enquanto não aparecer uma outra legislação contrária a essa, o que está valendo é que a carcinicultura tem proteção legal.

Além da regulamentação, quais as outras vantagens que essa lei traz para o setor?
Existem muitos produtores que estão implantados e estavam sendo multados, ameaçados, processados para que deixassem de produzir camarão, abandonassem a atividade ou tivessem sua área de produção reduzida. Esse medo acabou, porque a legislação protege a todos os que estão consolidados antes de julho de 2008, mesmo aqueles que porventura tenham ocupado área de APP, de manguezal. Esses produtores estão garantidos tanto pela lei federal (Código Florestal), quanto pela lei estadual.

Por que o Rio Grande do Norte é líder na produção de larvas e pós-larvas, e não é líder na produção do camarão adulto?
Pelos motivos que falei anteriormente. Tivemos problemas com a legalização e endemias. Essa endemia ainda não chegou no Ceará. Nós não desejamos que chegue, mas tudo indica que chegará lá, até porque no mundo inteiro os lugares que ainda não têm essa endemia é o Ceará e o Piauí.

Quais foram as medidas tomadas pela Associação de Criadores, em parceria com o governo ou não, para tentar superar a Mancha Branca?
Fizemos uma divulgação de como conviver com essa virose. É bom salientar que ela só faz mal ao camarão. Ela não prejudica de modo algum o consumidor humano. Então, promovemos cursos e debates entre os produtores. A barreira sanitária que precisamos fazer, nós conseguimos, que é evitar importar camarão de regiões com endemias diferentes das que nós já temos. Se você tiver um animal acostumado com um tipo virose do local, ele vive bem, consegue crescer. Mas se vier viroses diferentes de outros locais, ele vai demorar a se tornar resistente àquele vírus. 

Como a doença afetou a venda de camarão para o exterior?
As barreiras existem para exportar para produtores de camarão. Não há nenhuma barreira para EUA e Europa. Agora, países como o Equador não querem ter o nosso camarão, porque ele é portador de  um subtipo de vírus que nós não temos. Do mesmo jeito, não queremos que o  camarão deles entre no Brasil. Da mesma forma como não queremos que nenhum camarão asiático ou argentino entre no Brasil, porque eles têm uma quantidade muito maior de doenças que o nosso. Apesar de que temos poucas doenças, eles tem uma barreira terrível em relação a nosso produto. A importação de animais, mesmo mortos e congelados é devastador para o nosso plantel. 



#Fonte: Tribuna do norte