ENTREVISTA: 'Precisamos Tornar a Política um Bem Comum Novamente'

 “O diagnóstico da crise de hegemonia que fiz anteriormente só vem se confirmando, basta observarmos que há uma espécie de paralisia na política: os maiores partidos não conseguem criar um acordo de governabilidade, cada um quer tirar uma lasca de cá e outra de lá, e isso paralisa o governo e o Congresso”, diz Cândido Grzybowski à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por telefone.

renato araújoDiretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas fala sobre a crise no governo Dilma e os reflexos para a políticaDiretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas fala sobre a crise no governo Dilma e os reflexos para a política

Na avaliação dele, a situação é agravada pela “disputa entre o impeachment da presidente Dilma e a cassação do Eduardo Cunha. (...) A crise é tal que para uns não interessa acabar com o mandato ou atacar Cunha, porque se isso for feito, o impeachment da presidente pode avançar; outros querem atacar Cunha porque acham que assim não haverá avanços na discussão sobre o impeachment. Enfim, é uma situação complicada”.

Grzybowski frisa que outra dificuldade da crise é compreender, inclusive, quais são as disputas internas dos partidos políticos. “Em relação aos partidos que têm interesse no impeachment, vamos falar do PSDB do Fernando Henrique ou do PSDB do Aécio Neves? O que são os partidos hoje? Quem são as lideranças hoje? Essa falta de clareza é o que eu chamo de crise, a qual pode fazer com que a situação atual vá se arrastando, onde nem se casse o Cunha nem se faça o impeachment para que todos se salvem de alguma maneira”, adverte.


 Na última entrevista que nos concedeu, o senhor disse que a crise política era consequência da falta de hegemonia. De lá para cá, como tem avaliado o cenário político?
O diagnóstico da crise de hegemonia que fiz anteriormente só vem se confirmando, basta observarmos que há uma espécie de paralisia na política: os maiores partidos não conseguem criar um acordo de governabilidade, cada um quer tirar uma lasca de cá e outra de lá, e isso paralisa o governo e o Congresso. A situação é agravada ainda mais pela disputa entre o impeachment de Dilma e a cassação do Eduardo Cunha. Há essa tensão nesse sentido, mas não há avanços nessas questões, e nem sei haverá. A crise é tal que para uns não interessa acabar com o mandato ou atacar Cunha, porque se isso for feito, o impeachment da presidente pode avançar; outros querem atacar Cunha porque acham que assim não haverá avanços na discussão sobre o impeachment. Enfim, é uma situação complicada.

O governo tenta se “render” ao corporativismo do PMDB, porque assim tende a influir na governabilidade mais imediata, mas com isso se desfigura, aprofunda sua crise e aprofunda ainda mais a crise de hegemonia. Uma aliança desse modo não significa um pacto de governabilidade, mas, sim, um acordo de “não ataque” para que não haja uma desestabilização maior. O país está vivendo uma crise maior do que se previa, ao mesmo tempo que a crise confirma coisas que já vinham sendo apontadas antes. Há pelo menos três anos eu falava que esse modelo seria insustentável, ou seja, não é possível basear um modelo desenvolvimentista na aliança sindical-empresarial que estava no centro do pacto do PT no governo. Então, quando esse modelo entrou em crise e não havia lideranças capazes de apontar o mínimo de consensos de como resolver a crise, nós começamos a ir ladeira abaixo.

Então o jogo político hoje é de proteção, no sentido de que se evita o enfrentamento tanto com Eduardo Cunha quanto com Dilma, para que ambos concluam seus mandatos?
Acho que isso está acontecendo desde o início do ano, só que se trata de uma situação que vem da eleição do próprio Congresso Nacional, que é totalmente desfigurada. Quem de fato tem alguma coerência com suas propostas são os que menos representam a cidadania brasileira, ou seja, a a tríplice bancada do B – da Bíblia, da Bala e do Boi. Eles têm interesses pequenos, não são interesses republicanos e públicos, mas são eles que estão tendo certa eficiência em pautar o Congresso. Basta olhar as agendas que eles fazem avançar, como, por exemplo, o estatuto do desarmamento, da família, o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, a alteração da maioridade penal. Eles estão se aproveitando dessa situação de crise para aprovarem suas pautas.

Como o senhor analisa a tentativa da comissão especial de aprovar um projeto que praticamente revoga o Estatuto do Desarmamento, ao mesmo tempo que aprovaram, também na comissão correspondente, a PEC 215, que modifica a forma como são feitas as demarcações de terras indígenas no país?
Isso demonstra uma grande crise. Claro que sempre há recursos institucionais para impedi-las, porque a democracia tem ainda certa vigência institucional no Brasil. A presidente Dilma, bem ou mal, mesmo contestada, tem usado o veto em algumas medidas. Mas até onde ela vai conseguir vetar esses projetos? Ela está perdendo espaço. Essas agendas oportunistas entram quando estamos em uma situação de crise, porque elas não estão no grande horizonte político. Elas são votadas por grupos derrotados pela democratização brasileira, que estão sabendo atuar nessa hora.

Há possibilidade do fortalecimento desses grupos com a crise?
Acredito que estão se fortalecendo. A laicidade do Estado está sendo contestada. Estão querendo que um certo tipo de visão religiosa domine. Há também uma agenda obscura, mas que está na mídia, de achar que a crise fiscal, estruturalmente, tem mais a ver com a Constituição Cidadã de 1988 do que com outra coisa. Mas não se fala, por exemplo, da vergonhosa apropriação de riqueza do 1% da população que detém a dívida pública. Alguns economistas ortodoxos falam que é impossível resolver a crise fiscal do Estado enquanto saúde, educação e previdência/seguridade precisarem de verbas obrigatórias, mas isso, na verdade, é a primeira baliza para enfrentar, estruturalmente, uma sociedade extremante desigual, escravocrata, concentradora etc.
Para que essas agendas avancem, os políticos aliam-se à bancada BBB. Mas se a bancada da bala defendesse o estatuto do armamento, nunca teria força política para aprovar suas pautas, mas, ao contrário, ela se alia aos fundamentalistas religiosos e vota a agenda deles, vota a agenda dos ruralistas também, que têm mais força.

Ainda há interesse pelo impeachment? Quais partidos têm interesse em que ele ocorra? Ou a estratégia é manter o governo sob tensão até o terceiro ou quarto ano do mandato?
É difícil que ocorra impeachment porque a institucionalidade brasileira é muito clara sobre como se pode e deve fazer o impeachment. O judiciário tem uma certa autonomia para assegurar isso e ele tem atuado. Em princípio é muito difícil encontrar uma justificativa para o impeachment. Em relação aos partidos que têm interesse no impeachment, vamos falar do PSDB do Fernando Henrique ou do PSDB do Aécio Neves? O que são os partidos hoje? Quem são as lideranças hoje? Essa falta de clareza é o que eu chamo de crise, a qual pode fazer com que a situação atual vá se arrastando, onde nem se casse o Cunha nem se faça o impeachment para que todos se salvem de alguma maneira.
O problema é que, enquanto ficarmos nesse impasse, não pensaremos em alternativas. Estou ficando cansado de falar da conjuntura, pois fora o fato espalhafatoso e até ridículo que aparece no dia a dia, não há uma mudança substantiva. Qual é o elemento novo que existe na política? O que nos mostra que poderia surgir algo novo na política brasileira? O que existe é um certo vazio, um desencontro, está tudo desarrumado e o risco é que isso gere espaço para oportunistas. São eles que estão apresentando mudanças e agendas estapafúrdias, e, nessa confusão, eles vão avançando.

 Quais as razões desse vazio? Ele se manifesta na política de um modo geral ou em alguns partidos?
Os atores políticos perderam uma oportunidade gigante de se posicionar em relação ao que foram as manifestações de 2013, porque naquele momento estava surgindo uma cidadania pós-ditadura, pós-constituição. As manifestações estavam apontando uma agenda que dizia: “queremos educação padrão Fifa; transporte, e não carro individual; saúde de qualidade, não plano de saúde”. Havia uma agenda confusa, mas havia, e nenhum partido soube captar essa energia.
O PT achou que estava tudo bem por ter feito um movimento fantástico com as camadas populares - que sempre votaram de maneira conservadora, mas passaram a apoiar mais firmemente o governo do PT. Isso parecia ser garantia de manter o PT no poder por muito tempo, mas não é para tanto, inclusive porque as conquistas estão se desfazendo. Mesmo que o governo não diminua recursos em políticas sociais, o pessoal está perdendo o que foi, talvez, a única coisa importante conquistada nos últimos anos: o emprego e o emprego com salário mínimo, que cresceu.
Entretanto, está se voltando a uma situação de informalidade, muitas pessoas estão perdendo o emprego. Não apareceu nenhum líder novo, e se instaurou uma confusão, porque o velho não serve, o novo não apareceu e estamos nesse impasse. Acho que os partidos estão velhos, alguns estão surgindo agora, mas já nascem velhos. Veja, no partido da Marina já tem políticos com ficha suja. Claro que há muitos grupos discutindo conjuntura como há muito tempo não se discutia, mas as discussões são feitas sem conexão; é muito anárquico o momento que estamos vivendo.

Quais vícios já estão presentes na Rede?
Primeiro, o oportunismo dela na eleição passada; ela virou a casaca com a maior facilidade, com o objetivo de ganhar a eleição. O “ganhar” se tornou mais importante do que defender uma ideia. Para ganhar, o PT se transformou e deixou de ser o que era, um movimento de renovação política. Do mesmo modo, Marina rapidamente está fazendo o mesmo. Claro que ela voltou um pouco atrás, perdeu a eleição, mas veja quantos políticos estão se mudando para o partido dela.
Nós estamos precisando de um verdadeiro fermento político na sociedade e de forças aglutinadoras que consigam captar essa insatisfação que está nas ruas, no meio popular e na universidade

O senhor consegue vislumbrar uma saída para a crise? Que partido teria condições de congregar as divergências e as disputas políticas hoje?
Não consigo ver uma alternativa hoje. Como disse na entrevista anterior, ainda há muita fumaça. O problema será o que virá depois, mas não temos como saber o que vai acontecer. Temos de pensar e agir, porque o que será o amanhã depende da forma como vamos costurar o que está aí, ou seja, construir trincheiras para evitar o pior. A cidadania vai fazer a diferença. Não dá para esperar da elite política do governo: ou a cidadania inverte esse quadro ou não tem saída. Mas aí você pergunta: Quem? Nós temos de construir esse “quem”. 

Na semana passada foi divulgada a pesquisa de opinião do instituto CNT/MDA, que demonstra a rejeição dos brasileiros aos políticos...
Para mim, essa pesquisa é um sinal de que esse tipo de política não serve mais, basta ver que a rejeição da população é geral e não apenas a um ou outro partido. Entretanto, é perigoso confundir a rejeição a esse tipo de política com a política em si. Precisamos tornar a política um bem comum novamente. Insisto que foi a privatização associada à mercantilização, a primazia dos interesses particulares aos interesses republicanos, que fizeram com que chegássemos a essa situação. Uma figura estranha como o Bolsonaro [Jair Bolsonaro] é respeitada, mas veja, ele é um dos poucos políticos que mostra uma coerência, nem que seja de extrema direita. Ele não está sendo contestado e isso é preocupante. Mas o que estamos precisando é que a sociedade se expresse na forma como ela é. As manifestações foram grandes, mas que bandeiras tiramos delas? Nenhuma até agora. 

QuemCândido Grzybowski é graduado em Filosofia, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ijuí, Rio Grande do Sul, mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e doutor em Sociologia pela Sorbone, Paris. É diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).